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Hepatites virais: saiba como se manifestam os diferentes tipos da doença e conheça as formas de prevenção

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 304 milhões de pessoas no mundo vivem com hepatite B ou C – formas que frequentemente...

08/07/2026 às 10h21
Por: REDAÇÃO Fonte: Secom SP
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Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 304 milhões de pessoas no mundo vivem com hepatite B ou C – formas que frequentemente evoluem para infecções crônicas e complicações graves. Juntos, esses dois vírus são responsáveis por mais de um milhão de mortes anualmente em todo o globo.

No Brasil, foram confirmados mais de 800 mil casos de hepatites virais e cerca de 45 mil óbitos associados aos tipos A, B, C e D entre os anos 2000 e 2024, de acordo com o Boletim Epidemiológico Hepatites Virais 2025, do Ministério da Saúde.

Doses de vacina contra hepatite. Foto: José Felipe Batista/Comunicação Instituto Butantan
Doses de vacina contra hepatite. Foto: José Felipe Batista/Comunicação Instituto Butantan

“Um dos principais obstáculos para o controle das hepatites é a baixa taxa de diagnóstico. Como muitas pessoas não têm ideia de que convivem com a doença, elas acabam transmitindo o vírus sem saber”, alerta o gestor médico de Desenvolvimento Clínico do Instituto Butantan Eolo Morandi.

As hepatites virais mais comuns são causadas pelos vírus A, B e C, mas existem ainda os tipos D e E. Embora todas possam causar inflamação do fígado, elas diferem em aspectos importantes, como formas de transmissão, gravidade e métodos de prevenção.

Hepatite A: quando o problema está na água e nos alimentos

O vírus da hepatite A é transmitido principalmente pela via fecal-oral. De forma geral, a infecção acontece pelo consumo de água ou alimentos contaminados com resíduos fecais, contato pessoal próximo – comum em ambientes como creches ou instituições de longa permanência – e práticas sexuais que envolvam contato oral-anal.

Segundo o boletim do Ministério da Saúde, as regiões Nordeste e Norte concentraram a maior parte dos casos confirmados de hepatite A no Brasil entre 2000 e 2024. Recentemente, houve um aumento na taxa de incidência da doença impulsionado pelas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde a doença passou a se concentrar mais na população adulta, especialmente entre os homens.

“Trata-se de uma doença que está bastante relacionada a condições precárias de saneamento básico e higiene, fatores que acabam facilitando a circulação do vírus no ambiente”, pontua Eolo Morandi.

Os sintomas mais comuns da hepatite A incluem fadiga, mal-estar, febre, dores musculares, enjoo, vômitos, dor abdominal e diarreia. Em alguns casos, podem surgir sinais de comprometimento hepático, como urina escura, fezes claras e icterícia – coloração amarelada da pele e da parte branca dos olhos.

Diferentemente dos tipos B e C, a hepatite A não costuma evoluir para infecção crônica. Segundo Eolo Morandi, a doença geralmente apresenta caráter benigno e autolimitado, com recuperação espontânea na maioria dos casos. Pessoas acima dos 50 anos, entretanto, podem apresentar maior risco de evoluir para formas mais graves.

Não existe tratamento específico para a doença. No geral, é recomendado repouso e a adoção de uma dieta equilibrada, com reposição de líquidos. Também é fundamental evitar a automedicação, pois medicamentos desnecessários podem ser tóxicos ao fígado já inflamado.

A vacinação é considerada a principal ferramenta de prevenção da doença. O Instituto Butantan fornece a vacina contra hepatite A ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), que é aplicada em dose única aos 15 meses de vida.

Recentemente, o Ministério da Saúde ampliou a oferta de duas doses para grupos específicos, como usuários de Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) e pessoas com doenças hepáticas crônicas.

Boas práticas de higiene, como lavar as mãos frequentemente, higienizar alimentos crus com solução clorada e consumir apenas água potável ou tratada, e adotar medidas de proteção durante as relações sexuais também são maneiras de prevenir a doença.

Hepatite B: cuidado com sangue e atenção às relações sexuais

Exames auxiliam a detectar a doença. Foto: José Felipe Batista/Comunicação Instituto Butantan
Exames auxiliam a detectar a doença. Foto: José Felipe Batista/Comunicação Instituto Butantan

A transmissão da hepatite B ocorre por meio do contato com sangue ou outros fluidos corporais infectados. Uma das formas mais comuns de infecção em áreas de alta endemicidade da doença é a perinatal (ou vertical), que acontece de mãe para filho durante o parto.

Outras maneiras de disseminação do vírus são pelo contato sexual sem proteção, compartilhamento de agulhas e seringas, transfusões de sangue não testado, acidentes com materiais perfurocortantes, além de tatuagens e piercings realizados com equipamentos contaminados.

Quando presentes, os principais sintomas observados costumam ser fadiga, febre, mal-estar, dor abdominal, náuseas, urina escura e icterícia.

“O maior desafio da hepatite B está na sua capacidade de se tornar crônica, quando o organismo não consegue eliminar o vírus”, explica o gestor médico do Instituto Butantan. Nesses casos, a infecção pode permanecer silenciosa por décadas antes de evoluir para complicações graves, como cirrose hepática e câncer de fígado.

O risco de cronificação varia bastante de acordo com a idade em que ocorre a infecção. De acordo com a OMS, cerca de 90% a 95% das crianças infectadas no primeiro ano de vida desenvolvem a forma crônica da doença, enquanto esse risco é inferior a 5% para quem adquire o vírus na idade adulta.

Por conta disso, a aplicação da primeira dose da vacina contra a hepatite B deve ser feita ainda nas primeiras 24 horas de vida. O Instituto Butantan também é responsável por ofertar o produto ao PNI. Para crianças, a recomendação do Ministério da Saúde é que elas recebam quatro doses do imunizante: ao nascer, aos 2, 4 e 6 meses de idade. Já para a população adulta, o esquema completo se dá com três doses.

Além da vacinação, a prevenção envolve o uso de preservativo durante as relações sexuais e a adoção de práticas seguras em procedimentos médicos, odontológicos e estéticos. No Brasil, a maior parte dos casos confirmados de hepatite B concentra-se nas regiões Sudeste e Sul.

Hepatite C: quando a cura é uma possibilidade

A hepatite C é responsável por mais de 75% dos óbitos associados às hepatites virais no Brasil. Sua principal forma de transmissão é pelo contato com sangue contaminado, geralmente por compartilhamento de agulhas e seringas. De acordo com dados da OMS, pessoas que usam drogas injetáveis representam 44% das novas infecções pelo vírus. Outras formas incluem procedimentos médicos e estéticos sem esterilização e, menos frequentemente, via sexual ou perinatal.

Assim como os outros tipos de hepatite, os sintomas são praticamente ausentes; e quando existem, incluem fadiga, náuseas, urina escura e icterícia. A infecção também pode evoluir para sua forma crônica, que se não for tratada pode progredir para fibrose avançada, cirrose e câncer de fígado.

Diferentemente das hepatites A e B, ainda não existe vacina contra a hepatite C. A prevenção baseia-se no controle de exposição ao sangue, redução de danos para usuários de drogas e testagem espontânea para diagnóstico precoce.

Apesar da ausência de imunizantes, a hepatite C tornou-se uma doença potencialmente curável graças aos avanços dos tratamentos antivirais – mesmo quando ela já alcançou a sua forma crônica. O protocolo de cuidado é feito com o uso de Antivirais de Ação Direta (AADs) ao longo de algumas semanas, e as taxas de cura são superiores a 95%. No Brasil, o tratamento é disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Hepatites D e E: tipos menos comuns também são importantes

Embora sejam menos frequentes do que os tipos A, B e C, as hepatites D e E possuem características que as tornam relevantes para a vigilância em saúde pública.

A hepatite D, por exemplo, possui uma característica única entre as hepatites virais: ela só consegue infectar e se replicar em pessoas que também possuem o vírus da hepatite B. A transmissão ocorre, principalmente, pelo contato com sangue ou fluidos corporais contaminados.

No geral, a infecção por hepatite D se dá de duas formas: por coinfecção, quando a pessoa é infectada por ambos os vírus ao mesmo tempo; ou superinfecção, quando alguém que já tem hepatite B crônica é infectada pelo vírus D. A presença simultânea dos dois vírus acelera a progressão da doença e aumenta o risco de complicações graves, como cirrose e câncer de fígado.

Como o vírus da hepatite D precisa do vírus B para sobreviver, a vacinação contra a hepatite B ainda é o método mais eficaz de prevenção, oferecendo proteção indireta.

Já a hepatite E apresenta comportamento semelhante ao da hepatite A. A transmissão ocorre principalmente pela via fecal-oral, por meio do consumo de água ou alimentos contaminados.

Na maior parte dos casos, a infecção é autolimitada e desaparece espontaneamente em poucas semanas. A principal preocupação está nas gestantes, grupo em que o risco de complicações grave é significativamente maior, especialmente no terceiro trimestre. A hipótese é que a interação entre as alterações hormonais e imunológicas típicas da condição deixem as grávidas mais suscetíveis ao vírus e contribua para uma rápida replicação viral do vírus no organismo.

Avanços nacionais e objetivos globais para 2030

O Brasil tem avançado em algumas das principais frentes de combate às hepatites virais. No relatório global mais recente da OMS sobre o tema, o país foi citado como exemplo pelo progresso na prevenção da transmissão da hepatite B de mãe para filho, uma vez que a cobertura vacinal entre recém-nascidos saltou de 77% em 2023 para 98% em 2025.

A evolução também pode ser observada na mortalidade. Entre 2014 e 2024, a taxa de mortes associadas à hepatite B caiu 50% no país, enquanto os óbitos relacionados à hepatite C registraram redução de 60%.

Apesar dos progressos, o diagnóstico tardio continua sendo um dos principais obstáculos para o controle das hepatites virais. Para enfrentar esse desafio, a OMS estabeleceu como meta eliminar as hepatites como um problema global de saúde pública até 2030.

A estratégia prevê reduzir em 90% o número de novas infecções, diminuir em 65% as mortes relacionadas à doença, diagnosticar 90% das pessoas infectadas e garantir tratamento para 80% daqueles que necessitam de acompanhamento clínico – em relação aos níveis observados em 2015.

“O diagnóstico precoce é fundamental para interromper a cadeia de transmissão e evitar que a doença evolua para formas mais graves. Pelo menos uma coleta de sangue anual já contribui para uma pessoa saber se tem ou não a doença”, recomenda Eolo Morandi.

A conscientização da população também é considerada parte fundamental desse esforço. Por isso, desde 2010, a OMS promove o Dia Mundial de Luta contra as Hepatites, celebrado em 28 de julho. A data busca reforçar a importância da vacinação, da testagem e do acesso ao tratamento – ferramentas que podem evitar complicações graves e salvar milhões de vidas.

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