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Polícia DOENTE OU CRUEL

Suspeito de chacina fala em Deus, amor e aparece na cena de um crime brutal:doente ou perverso?

O assassinato de três pessoas de uma mesma família, em Votuporanga, região Noroeste de São Paulo, levanta discussão sobre jovem preso

23/01/2024 às 21h49 Atualizada em 23/01/2024 às 21h57
Por: Redação Sorocaba Fonte: Jair Viana
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O psicólogo Rodrigo Mansil (à esquerda) analisa o perfil de quem tem comportamento aparentemente contraditório como João Pedro Teruel/Foto:Reprodução de Arquivo Pessoal e Rede Social
O psicólogo Rodrigo Mansil (à esquerda) analisa o perfil de quem tem comportamento aparentemente contraditório como João Pedro Teruel/Foto:Reprodução de Arquivo Pessoal e Rede Social

O suspeito de participar da chacina de uma família, em Votuporanga, interior de São Paulo, João Pedro Teruel, de 23 anos é fanático pelo Facebook de mensagens que nada têm a ver com suas práticas.

 

Teruel tem ao menos quatro contas nesta rede social. Suas publicações são um paradoxo com aquilo que vive e faz. Para o delegado Tiago Madlun Araújo, que comanda as investigações, o rapaz não tem traços de alguém com algum problema psicológico. Já o psicólogo Rodrigo Mansil sugere cautela. “Por enquanto a prudência é o caminho mais sensato. Há mais hipóteses sobre as condições psicológicas do sujeito, que respostas definidas”, assinala o profissional.

 

João Pedro, na rede social, fala muito de Deus, Jesus, esperança, paz, mas segundo revelaram delegados em uma coletiva de imprensa, ele vive no crime. “Ele tem passagens por tráfico”, disse o delegado Tiago Madlun Araújo, que comanda as investigações sobre o assassinato de três pessoas de uma mesma família.

 

Para Rodrigo Mansil, o fato de João Pedro Teruel falar em Deus, manifestar sua prática religiosa, não quer dizer que ele não possa praticar coisas erradas. “São incontáveis, ao longo do tempo, diversos modelos culturais e religiosos, que “em nome de Deus”, líderes religiosos “curam” fiéis e ao mesmo tempo, abusam psicologicamente ou sexualmente das vítimas, de maneira velada exigindo das vítimas um silêncio sepulcral, para impedir escândalos. Isso também não é matar? “, questiona Mansil.

 

Sobre a teoria levantada a respeito da suposta religiosidade da Teruel, o psicólogo Rodrigo Mansil é mais enfático ao afirmar que o comportamento não está ligado à prática religiosa, e lembra que muitos líderes religiosos praticam crimes e ainda exige o sigilo da sua vítima. “O voto de silêncio destrói o emocional, tal qual veneno inoculado, lentamente fatal. Isso pode acontecer em qualquer denominação religiosa. Não espanta que existam tantos lobos em pele de cordeiro. Para os seguidores um ser quase angelical, na intimidade um criminoso em potencial com uma personalidade perversa”, diz.

 

O caso de João Pedro Teruel, talvez se encaixe na máxima de Karl Marx, segundo a qual: “o homem é resultado do meio em que vive”. A figura paterna que em geral é o espelho dos filhos, no caso do suspeito preso, seu pai também se encontra na cela, acusado de traficar drogas.

 

POSTAGENS

Em suas contas no Facebook, João Pedro usa muitas mensagens motivacionais, de cunho religioso e também usa muitas imagens e frases de efeito de algumas personalidades e outras aparentemente se sua criação. Coisas do tipo “Quem riu da minha ida vai chorar na minha volta(sic)”, esta frase está sobreposta a uma foto dele.

 

Em outra foto, cuja imagem um pouco desfocada, o rapaz imprimiu a frase: ”O silêncio tem uma grande vantagem: ele não dá pistas do seu próximo passo". Esta frase foi desmentida pelo trabalho da Delegacia de Investigações Gerais, sob o comando do delegado Tiago Madlun Araújo, que em menos de vinte dias da localização dos corpos, já tinha identificado João Pedro, monitorou seus passos e ele, mesmo em silêncio, acabou preso.

 

Em uma postagem de cunho religioso, o rapaz apela ao Salmo 91.7 que diz: “Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita; porém você não tu não serás atingido”. Três vítimas caíram ao lado dele e outros três ou quatro de seus comparsas despareceram. Só, até agora, foi atingido. Numa imagem dos “Irmãos Metralhas”, o rapaz colou a frase: “Vivos somos traídos presos somos esquecidos e mortos deixamos saudade(sic)”.

 

Uma postagem que ainda remete à chacina da família Marinho (Anderson,35, Mariele, 32 e a filha, Isabelly, 15 anos). Teruel posou imagem de luto.

 

Diante da suposta contradição entre o que João Pedro Teruel propaga em sua rede social o que ele pratica no dia a dia, a reportagem questionou o delegado Tiago Araújo se ele acredita que o rapaz sofra algum transtorno ou de alguma patologia que pudesse justificar sua suposta participação na chacina da família Marinho. Com toda convicção e pela experiência profissional, o policial foi lacônico na resposta: “Não, ele é totalmente capaz e imputável”, afirmou.

 

Mansil mantém o discurso da serenidade e cautela antes de uma análise técnica e segura sobre o caso. “Por enquanto a prudência é o caminho mais sensato. Há mais hipóteses sobre as condições psicológicas do sujeito, que respostas definidas”, diz

 

Na sua opinião um estudo detalhado é que vai apontar em alguma direção sobre o estado psicológico de João Pedro. “Sem um laudo psicológico, tecnicamente estruturado, nenhuma autoridade policial poderá apontar -com certeza - uma linha de investigação que possa elucidar a real motivação do crime, do ponto de vista emocional. Até o juiz, em casos em que a defesa alega problemas psiquiátricos do réu, o magistrado também se orienta pelo laudo psicológico, atestado por um psicólogo, que seja perito judicial”, explica Mansil.

 

Sobre o histórico de envolvimento de Teruel com drogas, Rodrigo Mansil, a pedida da reportagem, numa análise superficial, faz observações sobre a influência das drogas no comportamento de uma pessoa. “O mundo do crime envolvendo o tráfico de drogas e o uso de substâncias ilícitas, implica em traumas na construção da personalidade. O que essa criança (suspeito) presenciou e internalizou? Os pais são modelos para os filhos. A visão de uma família desequilibrada poderia explicar tamanha revolta, ao ponto de executar a família?”, questiona o psicólogo, que prossegue: “Mas tais experiências familiares, não são regra para seguir o mesmo caminho no crime. E isso está relacionado a formação do caráter”, reforça.

 

Mansil explica que a droga é um gatilho. “O uso de entorpecentes é gatilho para surtos psicóticos, onde o criminoso não tem consciência do que faz. Os impulsos mais primitivos são liberados. Nada justifica a atrocidade de uma chacina. A execução de uma família é chocante, cruel e inaceitável. Vou dar um exemplo, que não analisa, necessariamente este caso”, diz ele.

“Uma hipótese de psicodiagnóstico seria o transtorno afetivo bipolar. Quando o paciente oscila da depressão para o estado de mania (alta liberação de dopamina no cérebro) que traz a sensação de um poder que não tem limites. A pessoa é capaz de comprar um carro zero na concessionária e mais tarde se arrepender, passar dias sem dormir, abusar da sexualidade e chegar ao extremo da irritabilidade e violência”, pondera.

 

Rodrigo não afirma que João Pedro se enquadre nesse estado, observa que é uma análise superficial e não tecnicamente diagnosticado. “É uma possibilidade. Um exemplo, que nos leva a refletir: a sociedade está preparada para oferecer uma rede de apoio de diagnóstico e tratamento psiquiátrico de pessoas com transtornos mentais?”, pergunta.

 

Sobre uma solução para esse tipo de problema, Mansil ainda levanta questionamentos que devem ser feitos. “Quais são as medidas preventivas? Seria adequada a internação compulsória de viciados? O que esta chacina hedionda pode ensinar? O sistema prisional, realmente recupera os presos? A liberação do uso de drogas acabaria com o tráfico?

 

São questões polêmicas que necessitam muita discussão. O psicólogo Rodrigo Mansil deixa para reflexão da sociedade, a clássica pergunta de Sigmund Freud, o pai da psicanálise: “qual é a sua responsabilidade dentro do caos do qual você se queixa? Simbolicamente, cada um de nós morreu um pouco nessa tragédia, que, infelizmente, ainda será notícia em outras edições”, finaliza.

 

Pensamento lacaniano - A agressividade na adolescência, de acordo com a perspectiva do psicanalista Jacques Lacan, considerado um dos grandes intérpretes de Sigmund Freud, é caracterizada como uma manifestação do conflito entre o eu e o outro, como resultado do processo de identificação e da busca por autonomia. Lacan argumenta que a agressividade na adolescência surge da necessidade de se afirmar como sujeito separado dos outros, ao mesmo tempo em que busca estabelecer relações de poder e dominação. Essa dinâmica é influenciada pela busca por reconhecimento e pela luta pelo desejo

 

 

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